Missões, muito mais que uma ordem

Sabemos que o evangelho segundo Mateus encontra-se organizado em cinco grandes blocos, cada um contendo um dos cinco principais discursos de Jesus, a saber: o Sermão da Monte (capítulos 5-7), o Discurso Missionário (capítulo 10), o Discurso Parabólico (capítulo 13), o discurso sobre a igreja (capítulo 18) e o discurso sobre o fim dos tempos (capítulo 24-25).

Arthur F. Glasser, um proeminente missiólogo que serviu como missionário na China entre 1945 e 1951, identifica nesses cinco discursos cinco aspectos centrais que constituem o motor da instrução de Jesus a respeito do seu discipulado em relação ao Reino de Deus. Sem elas, o nosso discipulado estaria fragmentado e incompleto. Quero salientar que precisamos de uma leitura holística de tudo aquilo que constitui a sã doutrina na qual somos chamados a perseverar como discípulos de Jesus Cristo. No entanto, neste artigo gostaria apenas de enfocar um destes aspectos, por uma questão de relevância e brevidade: missões.    

Notemos, pois, que o segundo discurso de Jesus –  que se encontra no capítulo 10 de Mateus – começa assim: “Jesus enviou os Doze com as seguintes instruções…” (10:5) e termina em 11:1, onde Mateus diz: “Quando Jesus terminou de dar essas instruções a seus doze discípulos, saiu para ensinar e anunciar sua mensagem nas cidades da região”. No envio dos doze, torna-se evidente a complexidade da tarefa dada aos discípulos de Jesus: o serviço deve ser prestado, a reconciliação deve ser promovida e o alcance evangelístico deve caracterizar todo o envolvimento com os não-cristãos.

No final do capítulo 9 de Mateus (vv. 35-38), podemos observar um importante padrão sequencial que não apenas conecta efetivamente os capítulos 9 e 10, mas que também atribui um importante significado complementar prévio ao envio dos doze discípulos de Jesus. Permita-me tentar explicar essa sequência:

Em Mateus 9:35, Jesus modela a tarefa que mais tarde confiaria a seus discípulos: “Jesus andava por todas as cidades e todos os povoados da região, ensinando nas sinagogas, anunciando as boas-novas do reino e curando todo tipo de enfermidade e doença.” Um pouco depois disso, Jesus ordenaria seus discípulos a irem e proclamarem as boas novas do Reino dos Céus, depois de instrui-los e dar-lhes autoridade em seu nome (10:1).

Em Mateus 9:36-37, Jesus descreve o panorama que seus discípulos devem esperar. Jesus apresenta as ovelhas como confusas e desamparadas, como ovelhas sem pastor. As ovelhas estão realmente desamparadas sem um pastor para protegê-las, e proteger as ovelhas é o que um verdadeiro pastor deve fazer! Em João 10:11-18, Jesus se revela como o Bom Pastor em contraposição com aqueles que não são pastores de verdade, que abandonam as ovelhas e fogem quando os lobos chegam. Mas não Jesus. Ele não tira a vida das ovelhas em benefício da dele, mas dá a sua própria vida pela delas. Em Jeremias 3:15, Deus havia prometido a Israel que lhes daria pastores, isto é, líderes segundo o Seu coração, que os alimentariam com conhecimento e entendimento. No entanto, em Mateus 9:36, Jesus sente-se triste e movido a compaixão pelas ovelhas de Israel, não pela falta de pastores, uma vez que Israel tivera muitos líderes religiosos que tinham um conhecimento extensivo das Escrituras, contudo careciam completamente do verdadeiro amor altruísta e compaixão pelas ovelhas de Deus que Jesus demonstrava.

No versículo 37, Jesus dará a seus discípulos uma visão ampla, porém simplificada, da situação, afirmando que “a colheita é grande, mas os trabalhadores são poucos”. Se observado desde uma perspectiva humana, esta seria uma afirmação totalmente desanimadora; mas, se observada por meio dos olhos da fé, veríamos que “aquilo que é impossível para o homem é possível para Deus” (cf. Lucas 18:27). Jesus não está tentando desencorajar seus discípulos, senão aumentar sua fé ao ponto de movê-los contra toda circunstância perceptível, em total dependência de Deus.

Então, em Mateus 9:38, Jesus compele seus discípulos a se dedicarem fervorosamente à oração, rogando ao “Senhor da colheita que envie mais trabalhadores para seus campos”. Jesus nunca instruiu seus discípulos a tentarem encontrar uma solução para o “panorama negativo” que ele acabara de lhes apresentar. Essa nunca foi a intenção, claramente. É evidente neste ponto que a razão pela qual Jesus apresenta a seus discípulos um panorama avassalador é para que eles tenham certeza de que o que o que viria a seguir não poderia ser feito por meios humanos. Eles precisariam confiar em Deus durante todo o processo. Teriam de confiar no Senhor da colheita. Contudo, observe que eles são instruídos a pedir a Deus que envie trabalhadores para a Sua colheita, assim como nós também somos obrigados a pedir a Deus que levante, prepare e envie missionários ao mundo. Mal sabiam os discípulos – provavelmente – que naquele momento tudo aquilo estava sendo feito em preparação para o envio deles. Alguns versículos depois, o Senhor da colheita responderia suas orações enviando a eles mesmos: “Jesus enviou os doze com as seguintes instruções: ‘Vão e anunciem que o Reino dos Céus está próximo’.” (cf. Mateus 10:5,7).

O padrão sequencial agora está completo: Jesus modela a tarefa que confiará a seus discípulos, ele esboça o panorama avassalador que eles devem esperar, ele instrui seus discípulos a se envolverem em fervorosa oração, pois os meios humanos não serão suficientes e, portanto, precisam aprender a confiar no poder de Deus na medida em que são movidos pela sua fé e obediência à instrução missionária de Jesus.

Em Mateus 10:1, vemos que Jesus não apenas chamou os doze, senão que também lhes deu o poder para cumprir o que ele os havia chamado para fazer. O mesmo princípio é válido para nós hoje: a quem Deus chama, Deus capacita. A capacitação pode não ser completamente evidente antes do início do ministério, mas se tornará evidente ao longo do caminho.

Enquanto Jesus visitava as cidades da região da Galileia, ele ensinava, pregava e ajudava pessoas carentes com seu poder milagroso (cf. Mateus 4:23). O envio desses doze pode ser visto como um esforço consciente de dar continuidade ao trabalho de Jesus, em preparação para o futuro ministério dos seus discípulos, uma vez que Jesus morresse e ressuscitasse, e o Espírito Santo viesse sobre eles, capacitando-os para serem testemunhas de Jesus em Jerusalém. e em toda a Judéia e Samaria, e até os confins da terra (cf. Atos 1: 8); e tornar-se sucessores de Jesus em seu ministério da reconciliação entre Deus e o homem (de todas as culturas), como embaixadores de Cristo e Seu Reino Celestial aqui e agora (cf. 2 Coríntios 5: 18,20), tendo em mente que o evangelho que somos chamados a pregar é a provisão graciosa da aliança de Deus com Seu povo por meio de Jesus Cristo, independentemente da cultura.

A nossa missão não parte de nós, mas daquele que a modelou para nós e nos chamou, apoderou e enviou a cumpri-la. Daniel W. Bacon diz que a igreja tem muitas responsabilidades, mas tem uma só missão: a evangelização e o discipulado das nações. Por tanto, vão e anunciem as boas novas do Reino dos Céus. Vão!

Pr. Jansen Costa

Missionário SM no Japão

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