Nosso Tempo, Nossa Missão

Cada época tem os seus desafios próprios. E cada geração é responsável por encarar os desafios de seu tempo. Muitas vezes é fácil criticar aqueles que nos antecederam achando que a forma como pensavam e como fizeram o trabalho estava errado, ou que careciam de melhor compreensão e conhecimento. Na história da Igreja em geral, e de missões em particular, há, naturalmente, muitos equívocos e muitas iniciativas frustradas. Afinal, foram seres humanos, como eu e você, que tentaram ser fiéis à vocação missionária. Nossas obras também serão avaliadas um dia. Isto não significa, no entanto, que não devemos continuar a buscar novas formas de fazer missão. Os tempos são outros, com mudanças num ritmo galopante e cada vez mais imprevisíveis. Seria no mínimo imprudente não tentar achar meios e métodos que são eficazes para nossos dias. Pior que ser avaliado como aquele que fez e errou, é de ser visto como alguém que nunca tentou.
O mundo neste começo da terceira década do século XXI é completamente diferente daquele que terminou o século passado ou mesmo em relação à década anterior. Em todas as áreas, política, econômica, religiosa, de comunicações, etc., têm havido importantes mudanças. O tempo é favorável às estruturas flexíveis e leves, às missões de países que não são identificados como colonialistas e imperialistas, aos missionários com facilidade de adaptação e às igrejas que se envolvem na sociedade de forma serviçal. A comunicação tradicional e unilateral a partir do púlpito pouco influencia, sendo que as redes sociais são bem mais assistidas que os cultos nas igrejas. O diálogo aberto e franco substituiu o dogmatismo e a intolerância. O denominacionalismo e as tradicionais divisões eclesiásticas são irrelevantes para a geração jovem. E vemos o mover do Espírito de Deus, que não conhece (e quem sabe nunca conheceu) as barreiras que usualmente temos definido.
O tempo que vivemos é de oportunidades como nunca antes. Deus está operando em lugares e contextos inesperados. Quem sabe o maior desafio que temos é entender e discernir a obra do Senhor da Seara em épocas como a nossa. Com o intuito de compreender melhor o tempo em que vivemos, quero brevemente destacar algumas áreas bem conhecidas mas que precisam ser levadas em consideração.

A Economia Mundial
A economia mundial tem forte influência em tudo que acontece no mundo de hoje. Existe um poder financeiro concentrado em algumas áreas, em alguns países; às vezes, dentro de um país, em algumas famílias, em certa elite. Os investimentos que são feitos a partir do poder financeiro, geralmente, são financiamentos que seguem uma ideologia definida.
É claro que se Kadafi investia no Mali, inclusive, na Universidade de Bamako, não era apenas para ajudar os pobres do Mali. Se os Estados Unidos mandaram suas tropas para invadir o Kuwait e libertar o país de suposta opressão, a intenção não era apenas de ajudar os kuaitianos que sofriam. Existe uma ideologia que norteia esses interesses e financiamentos. A China está investindo fortemente em muitos lugares na África. Ainda não sabemos por completo quais as intenções por detrás disso, mas não é apenas para ajudar o continente. Poderíamos citar outros exemplos onde vemos essa influência do poder financeiro ao redor do mundo.
Nós temos também os blocos econômicos que reúnem países de uma região, e há uma tendência de criar mecanismos de proteção a economias já fortes. A União Europeia é um exemplo clássico. Outros blocos assim são o Nafta da América do Norte, o Cone Sul e a Liga Árabe. Havia uma esperança muito grande de que os BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) mudassem esse equilíbrio financeiro do mundo, inclusive, uma expectativa muito grande em relação ao Brasil. Mas, mesmo que os BRICS ainda não chegaram lá, provocaram mudanças internacionais e existe uma sensibilidade financeira às economias desses países. A expressão “quando a China dá um espirro, todo mundo pega um resfriado” tenta descrever algo dessa crescente influência.
A crise mundial afeta principalmente as economias fracas e instáveis, mas também o trabalho missionário. E, quando há uma crise, parece que nossa confiança – até em Deus – é abalada. Um exemplo concreto foi que, depois do “11 de setembro”, as fundações e as próprias igrejas dos Estados Unidos já não queriam ofertar da mesma forma para o mundo muçulmano como haviam feito antes.
Vivemos um tempo crítico em nosso próprio país com o forte aumento do dólar. Graças a Deus, muitas igrejas têm sido fiéis. Sabemos, no entanto, que a tendência é que a crise gere insegurança e as pessoas poupem mais.
Agora, precisamos lembrar, no meio dessa crise econômica mundial, que, se olharmos para a história, veremos que missões não começou nos países ricos. Não foram os países ricos que começaram a enviar missionários. Essa é a própria história da Escandinávia e dos Estados Unidos. Hoje, vários desses países continuam investindo em missões, mas a história missionária mostra que não foi na dependência do dinheiro que se fez missões. Porém, é uma realidade que a situação financeira nacional e internacional afetam a questão missionária em muitos aspectos.

A Política Internacional
A segunda área é a da política. Economia e política estão intimamente ligados. Fala-se hoje na volta da guerra fria e as atitudes, principalmente, do presidente Putin em relação à Ucrânia e a outros países da região, incluindo uma relação tensa com a União Europeia, ameaçam a paz internacional. É algo que está afetando o investimento missionário, principalmente no antigo leste europeu.
Temos a situação muito complicada do conflito entre Israel e Palestina, que contribui para a insegurança dentro do Oriente Médio como um todo. E, não poderíamos deixar de mencionar, a situação da Síria e do norte do Iraque, que tem trazido muita instabilidade não só para a Síria, mas também para os países vizinhos como o Líbano, a Jordânia e a Turquia. Essas questões podem parecer, às vezes, mais religiosas; mas são, na verdade, fortemente entrelaçadas com poder político, afetando a igreja local e o envio de missionários.
Um resultado é o aumento da migração chegando a proporções inéditas em nossos dias. Calcula-se que 300 milhões de pessoas estão, de alguma forma, a caminho de algum lugar, fugindo de guerra, perseguição e miséria, e em busca de melhores condições de vida. A migração tem um aspecto positivo da evangelização, porque muitos em diáspora são crentes. E, assim como aconteceu em Atos 8, esses crentes, que não são oficialmente enviados, plantam igrejas.

O Confronto Religioso
Há pelo menos dois níveis em que o confronto religioso acontece: entre as grandes religiões e dentro de cada religião maior. No caso das Igrejas Cristãs, existe uma certa aproximação entre as três famílias eclesiásticas, a Igreja Católica Romana, a Igreja Ortodoxa e a Igreja Protestante/Evangélica.
A Igreja Católica Romana tem uma nova imagem com o Papa Francisco, que amenizou os atritos que havia com outros grupos cristãos. Mas não podemos confundir a figura do Papa com a Igreja em si – a instituição do Vaticano, com toda sua estrutura e riqueza. Existe, no entanto, uma aproximação com movimentos protestantes e ecumênicos e também com o próprio Evangelho de Cristo.
A Igreja Ortodoxa está fortemente dividida. Na verdade, não existe uma Igreja Ortodoxa e, sim, várias igrejas ortodoxas a partir de tradições locais e nacionais. Mas elas vivem uma situação mais reacionária, principalmente onde a igreja evangélica está avançando, como, por exemplo, na Grécia e na Sérvia.
A Igreja Evangélica tem um forte crescimento em alguns lugares, principalmente na América Latina, na África sul-saariana, no Sudoeste da Ásia e no Leste Europeu. Os desafios são as tendências ao nominalismo e materialismo a partir da segunda ou terceira geração de crentes, a falta de discipulado e divisões que geram um sem-número de denominações e ministérios independentes.
A perseguição aos cristãos continua sendo uma realidade no século 21. Calcula-se que 200 milhões são perseguidos pela fé. Ao mesmo tempo, a plantação de igrejas tem crescido consideravelmente, como, por exemplo, no norte da Índia, onde a perseguição tem sido muito forte por parte dos hindus. Nesses últimos 20 anos, foram plantadas dezenas de milhares de igrejas locais, geralmente a partir de grupos familiares e caseiros liderados por novos convertidos. As igrejas caseiras na China continuam crescendo e há um movimento interessante de aproximação entre a igreja oficial na China e essas igrejas subterrâneas que, em parte, estagnou devido ao maior controle às igrejas pelo governo.
Na Síria e no norte do Iraque, no entanto, a igreja perseguida está correndo o risco de ser exterminada, sendo que muitos dos que permanecem são mortos, enquanto que outros fogem para o mundo ocidental. A perseguição, portanto, nem sempre significa crescimento de igreja.
O Islamismo continua avançando e é a religião que mais cresce atualmente, perdendo apenas para os evangélicos. A mega-estratégia islâmica é muito eficaz e a construção de mesquitas ocorre hoje em todos os continentes. Quem sabe o mais preocupante no momento é a ação dos grupos extremados, como a Alcaida, o Boko Haram e o Estado Islâmico. Um aspecto interessante é que o conflito dentro do Islamismo, devido aos movimentos extremos e agressivos, tem gerado um desgaste interno, levando a perguntas como: “Que religião é essa?”, “Quem somos nós, na verdade, que temos um movimento como o Estado Islâmico?”. Há muitos relatos de muçulmanos que estão se convertendo ao Cristianismo como resultado da insatisfação com a violência do extremismo religioso.

As Redes Sociais
Outra área que afeta de forma tanto positiva como negativa, é a comunicação global. As redes sociais, Internet, Facebook, Instagram, etc., trazem novas possibilidades. A socialização da informação é algo positivo e nos incentiva como missões a sermos mais exatos, mais corretos e verdadeiros em nossas informações. Ao mesmo tempo expõe com mais facilidade aos missionários que trabalham em áreas sensíveis e a imprudência no uso pode prejudicar tanto o trabalho missionário como as comunidades locais.
Porém, há uma grande parte do mundo que não tem acesso às redes sociais, assim como culturas orais que exigem uma estratégia própria para que o Evangelho chegue de forma compreensível.

As Catástrofes
O aparente aumento das catástrofes, que é, naturalmente, algo trágico, tem resultado em aberturas para o Evangelho e para a atuação da igreja. O tsunami que ocorreu há alguns anos atrás no sudeste asiático, abriu portas para uma atuação evangélica. E, em outros países, terremotos têm facilitado a entrada de organizações cristãs de socorro emergencial. Um exemplo interessante é o relato de pastores japoneses que afirmam que depois do tsunami e do vazamento da usina atômica muitos buscaram ajuda espiritual, aceitando a Jesus, não sentindo mais segurança nas instituições governamentais e sociais do país.

Para concluir, poderíamos refletir: o que isso significa em termos de missões para nós? O que isso muda em termos da nossa própria estratégia, com quem trabalhamos e o que fazemos? Em muitos lugares, não podemos entrar, países se fecham por várias razões. Enviar missionários para certos lugares hoje, principalmente com o título de missionário, é impossível. Em outros lugares, extremamente perigoso. Temos, sem dúvida, uma oportunidade de inovar. Não possuímos os recursos nem a estrutura dos Estados Unidos ou de alguns países na Europa para mandar missionários, mas queremos dar nossa contribuição fazendo discípulos em todas as nações. A missão é de Deus, o tempo é a oportunidade que Ele nos dá.

 

Pr. Bertil Ekström
Missionário Interact e Diretor do CEMA

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